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Jamais teremos um Marat

Jean Paul Marat era um homem desprezível. Baixo, magro, narigudo e médico. Teria passado pela história em branco como a maior parte dos homens desprezíveis. Não fosse o fato que destronou o rei da França e deu início a república francesa. Muitos se lembrarão de Robespierre e Danton, principalmente por causa do “Governo do Terror”. Contudo, sem Marat, nada disso seria possível.

Pintura de Jean Paul MaratMarat sofria de uma doença de pele incurável que lhe dava a sensação de queimação por todo o corpo. Para suportar este martírio passava a maior parte do dia imerso em uma banheira cheia de água fétida. E ali, se dedicou ao jornalismo político como nunca alguém havia feito na nossa história ocidental. Meio deitado naquela banheira, usando pouco mais que uma pena e papel. Marat derrubou o Rei de França.

Escrevia compulsiva e ardorosamente. Não lhe importavam os fatos apenas as aparências e com poucas verdades e muitas hipérboles, seu jornal era disputado a tapas pela plebe ignara de Paris. Derrubou o rei. Ou por que este não levou a sério o povo, ou por que era fraco e incompetente. Marat, só com sua pena, dentro d’água, mudou a história. Homenzinho desprezível, mesquinho, antipático. Herói de toda uma nação por que teve a coragem de arriscar e perder a vida por uma ideia. É isso que a história espera dos grandes homens.

No Brasil, toda a mídia é mantida por verbas de publicidade do governo. Toda, sem exceção. Para piorar rádios e televisões são concessões do poder público que coloca sobre os jornalistas e artistas em geral a espada da cassação. A única esperança eram as redes sociais. Mas aqui, até as redes socais são corrompidas pelo dinheiro do seu imposto. Jamais teremos um Marat.

Precisaríamos de um homenzinho desprezível. Disposto a arriscar o seu emprego e talvez a vida por um ideal. Por uma ideia. E, o que vemos não é isso. O que vemos são cuidados exemplares quando falamos de ladrões de gravata. Cuidados com os três poderes como se lhes fosse outorgado alguma santidade pelo cargo auferido. Jamais teremos um Marat.

O dinheiro corrompe e o dinheiro do governo corrompe absolutamente. Nem nossos palhaços são dignos da palhaçada. Não há honra entre ladrões ou artistas. Vimos, com o episódio do Ministério da Cultura que nem nossos ídolos são dignos da nossa confiança. Afinal, a coisa mais importante de se aprender em política é não confiar em ninguém que lucre com sua ideologia. A lista de projetos bancados pelo Ministério da Cultura nos mostrou que a ideologia dos artistas é contada em reais. Muitos reais. Que saem do seu bolso duas vezes. Uma quando paga os impostos outra quando paga os ingressos. Jamais teremos um Marat.

Principalmente por que, mesmo ignara, a plebe de Paris sabia se indignar. A nós restou apenas estupidez e a desonestidade. Pessoas estúpidas e/ou desonestas acreditam que a solução do país é cortar investimentos e fazer um imposto provisório. Acreditam que o governo vai fazer a parte dele e que devemos fazer a nossa. Onde está o nosso Marat para dizer não. Isso é miopia provocada pela ignorância ou fomentada pela ganância em seios desonestos.

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Não é possível aumentar impostos enquanto tivermos mais de 600 mil pessoas pagas com o seu dinheiro em cargos de confiança. Antes de aumentar os impostos, ou diminuir os investimentos que tal reduzirmos isso para zero. Isso mesmo. Zero cargos de confiança neste país.

Não é possível aumentar os impostos enquanto gastarmos um bilhão de reais por ano para manter os 513 deputados. Que tal, baixar isso para 203 milhões por ano se deixarmos apenas os benefícios que um pedreiro tem. Ou melhor. Que tal baixar para 101 milhões por ano se reduzirmos esta mamata pela metade.

Não é possível aumentar os impostos enquanto 3350 municípios brasileiros viverem apenas do Fundo de Participação dos Municípios e de verbas dos estados para manter câmaras de vereadores que servem apenas como cabos eleitorais para os caciques de Brasília. Que tal eliminar toda a máquina legislativa dos municípios que não têm arrecadação 1000 vezes maior que o custo da câmara de vereadores?

Mas, você nunca verá estes temas discutidos na televisão por que, afinal, nunca teremos um Marat.