Press "Enter" to skip to content

Não olha não…

Ainda me lembro da sensação de ter todas as respostas e ser capaz de fazer qualquer coisa. Podíamos tudo e tudo faríamos. Não fosse os 17 anos teríamos dominado o mundo. Éramos jovens, inocentes, valentes e curiosos.

A Escola Técnica Visconde de Mauá, nosso reino, ocupava nossos sonhos e pesadelos. Provas, professores, responsabilidades e amigos, muitos amigos. Uma amizade diferente, simples, e duradoura.

Hoje, me lembro deles. Especificamente do Wanderlan. Do Céu, outra de nós acabou de avisar. Wanderlan faleceu. Levou-lhe uma embolia pulmonar. Coisa de velho. Estamos ficando velhos.

wanderlan

Tinha três paixões, a filha flamenguista, o Botafogo e o Cacique de Ramos. A primeira, flamenguista por praga minha, além de paixão, maior orgulho. As outras duas: o Cacique de Ramos e o Botafogo foram cultivadas desde a mais tenra idade. Quando o conheci, aos 17 já falava dos dois com entusiasmo e dedicação.

Éramos jovens. Na época, calouro da Escola Técnica Visconde de Mauá, era siri. Sofria um trote cruel, com requintes de humilhação e tortura. Mas, verdade seja dita, ninguém se sentia humilhado ou torturado. Eu, por exemplo, fui eleito Leiloca do ano, Wanderlan, ganhou o campeonato de matar formiga a grito. Coisa muito difícil já que formiga, aparentemente, é surda. Nos conhecemos medindo o campo de futebol society com meio palito de fósforo. E muito me orgulho de dizer que conseguimos. Também erámos obrigados a raspar o cabelo.

Carecas, no segundo dia, nos reencontramos. Eu pirata, ele capacete e junto com o Gilson, fomos explorar a escola pela primeira vez. Lá em cima, perto da piscina fechada havia um laboratório, talvez de biologia. No canto, olhando solene, um esqueleto completo pendurado na parede.

Saímos e fomos em direção ao prédio da eletrônica, pelos caminhos arborizados da escolha. De repente, um grito: Siri!!!

Wanderlan, mais que rápido: Não olhem, não olhem de jeito nenhum….

– Por quê, bicho, tá com medo?

– Medo não, cuidado, o último que olhou tá pendurado lá no laboratório!

Era assim que ele era, rápido, inteligente e engraçado. É assim que vamos nos lembrar dele.