Press "Enter" to skip to content

Hoje eu perdi um amigo, e vou dormir mais pobre

Hoje perdi um amigo, Denilson Nogueira e, desgraçadamente, soube disso pelo Facebook.

Não conheci o homem, o oficial da marinha, o professor, o pai, o marido. Não conheci nenhum destes. Não o via há mais de 30 anos. Recentemente, uma amiga, destes tempos idos, o encontrou no Facebook e lá fiquei seu amigo. Há poucos dias sofri quando ele perdeu a mãe e hoje sofro por sua perda. Não conheci o homem mas, conheci bem o menino, o rapaz.

Era a década de 80, o Brasil, saindo da ditadura e entrando na democracia nós na Escola Técnica Visconde de Mauá. Estudando eletrônica, como poucos. Ficávamos horas no Bosque, os tempos livres, os tempos antes das aulas, o intervalo bosque. Eu, Denilson, Ary, Israel, Zé, Mary, Maria do Céu, Juçara, Wanderlan, Gilson, Manguito e tantos outros. Praticando nossos esportes favoritos, ping-pong com livro de eletricidade, falar mal dos professores, paquerar.

Meu pai me ensinou que não morre quem é lembrado. Então, me deu vontade de contar uma história. Não do homem, do menino, do menino Denilson. Quem sabe uma história de quando ele não era pai, nem marido, nem professor traga um sorriso para aqueles que sentem tanto a falta do homem.

denilsonÉramos forçados a fazer educação física. Futebol, basketball ou atletismo. Neste ano chegou a escola uma nova professora, Isaura. Não era uma mulher muito alta, mas era muito, muito loura e gostosa. Gostosa como a vida.

Nós, suando hormônios a adorávamos. Seguíamos cada um dos seus movimentos, horários, exercícios com olhares ávidos e famintos que só os meninos de 15 anos sabem fazer. Para nós, no nosso pequeno universo, uma verdadeira celebridade. O menino Denilson, que já gostava de atletismo, enlouqueceu.

Certo dia, a professora Isaura sacou uma grande ideia. Uma meia maratona, uma corrida, com os alunos do Mauá em torno da quadra. Uma quadrinha composta da escola e de um sem número de quarteis, em Marechal Hermes, no Rio de Janeiro, uns 10 Km. Sem hesitar, o menino, magro, dentuço e decidido resolveu participar da corrida e começou a treinar. Corria atrás da Isaura para todo lado.

Mudou completamente a rotina. Nós estudando, e Denilson correndo. Nós no bosque e Denilson correndo. Nós em aula e Denilson em aula também. Pelo menos na aula ele parava de correr, mas ficava olhando para o campo.

Todos os dias. Onde está o Denilson? correndo. Correndo muito. Com dedicação e seriedade. Correndo.

Chegou o dia da grande corrida. Um evento, veteranos, calouros, professores, convidados. Todos na largada, torcendo. Depois, fomos para o Bosque, o grupinho de sempre.

Corrida rolando e nós paquerando, conversando, jogando. Denilson… Correndo.

Esquecemos da corrida. A verdade é essa. Esquecemos.

Olho nas meninas, no papo e nada de corrida. Chega o primeiro colocado. Não lembro quem foi. Não tem importância. Chega um, outro.

Nós, no Bosque. Alguns minutos depois chega Denilson. Suado, cansado, magro, dentuço, de shorts, tênis, sem folego e cheio de orgulho. Alguém lembrou de perguntar: E ai, como foi?

-Cheguei em oitavo!

Explodimos em comemoração. Oitavo! Quem imaginaria. Não é um primeiro lugar, não dá pódio mas não é qualquer um que chega em oitavo em uma corrida destas. Eu, morrendo de inveja. Não corro nem para pegar ônibus. Todos comemorando, parabenizando, abraçando. Denilson, meio calado, agradecendo, sem fôlego. Alguém lembrou de pagar um refrigerante para nosso herói.

Até que o Ary lembrou de perguntar: Quantos correram? E ele, meio discreto:

-Nove!

Hoje perdi um amigo, e vamos todos dormir mais pobres.

Vá em paz meu amigo. Esta corrida você não precisava vencer.

One Comment

  1. Jorge Jorge

    Olá Frank. Muito boa história e homenagem. Simples e sincera. E de fato, volta-se a viver cada vez em que se é lembrado..

    Um abraço,

Comments are closed.