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Tudo o que cabe em uma Taça Viena

Estava um calor de trocar religião. Mesmo com o climatizador ligado no máximo ficávamos meio tontos, indecisos, suando.

Fim de ano, todo o sacrifício vale a pena. Sem nenhuma razão resolvemos ir ao Barra Shopping. No caminho, eu, esposa e filho, começamos a conversar.

taça vienaEle, primeira vez no Rio de Janeiro, com idade suficiente para entender o que se passa. Nós, quase dez anos sem ver a família. Logo depois de sair de São Conrado começaram as lembranças. Oportunidade única. Mostrar ao filho os lugares onde os pais iam para namorar vinte anos antes dele nascer.

Nostalgia é coisa de gente velha,  saudade não.

Ele excitado, olhos brilhando. Uma asa delta aqui, um parapenting ali. O tamanho da Roçinha desperta medo, as coisas que ouvimos do Rio quanto estamos longe. O caminho está diferente, muito diferente, quase me perco.

A Barra, parece outro planeta, muitos prédios, shoppings, avenidas novas, tudo confuso, cheio e quente, muito quente. Alguém mudou o Barra Shopping de lugar!

Achamos, entramos, perdemos meia hora para parar o carro e conversamos. Conversamos muito,  contamos da Taça Viena. De quando vínhamos ao cinema e tomávamos uma taça de sorvete.  Uma extravagância, um luxo: a Taça Viena.

O Viena está lá, no mesmo lugar. Nossa mesa também junto a janela, no fundo, no mesmo lugar. A vista é diferente. As pessoas mudaram, o ambiente mudou, até a rotina do restaurante mudou mas no cardápio: A Taça Viena.

Contamos como era boa, como era grande, quanto sorvete vinha. Um absurdo, uma gulodice, uma extravagância. Estranhei que não era tão cara quanto eu me lembrava. Pedimos. Ele ansioso, interessado. Nós, emocionados, saudosos.

Chega a Taça. Surpresa! Meu filho solta um “não é tão grande!”

Não é mais.

Cabem apenas 6 bolas de sorvete, chantilly e algumas frutas.

Antes cabia todos os nossos sonhos, nossos desejos, nossa juventude.

Hoje mal cabe a saudade.